Um olhar interior...

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

A Casada Infiel

 

Levei-a comigo ao rio,
pensando que era donzela,
porém já tinha marido.
Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Os lampiões se apagaram
e acenderam-se os grilos.
Nas derradeiras esquinas
toquei seus peitos dormidos
e pra mim logo se abriram
como ramos de jacintos.
A goma de sua anágua
soava no meu ouvido,
como uma peça de seda
lacerada por dez facas.
Sem luz de prata nas copas
as árvores têm crescido,
e um horizonte de cães
ladra mui longe do rio.

*

Passadas as sarçamoras
os juncos e os espinheiros,
por debaixo da folhagem
fiz um fojo sobre o limo.
Minha gravata tirei.
Tirou ela seu vestido.
Eu, o cinto com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais ao luar
resplandecem com tal brilho.
Suas coxas me fugiam
como peixes surpreendidos,
metade cheia de lume,
metade cheia de frio.
Percorri naquela noite
o mais belo dos caminhos,
montado em potra de nácar
sem bridas e sem estribos.
Dizer não quero, homem sendo,
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
me faz ser mui comedido.
Suja de beijos e areia,
trouxe-a comigo do rio.
A aragem travava luta
com as espadas dos lírios.
Portei-me como quem sou.
Como um gitano legítimo.
Uma cesta de costura
dei-lhe de raso palhiço
e não quis enamorar-me
porque tendo ela marido
me disse que era donzela
quando a levava eu ao rio.

Federico García Lorca, in 'Romanceiro Gitano'

publicado por AIMSF às 13:39
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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009


As palavras que te envio são interditas

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma  regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

                      Eugénio de Andrade

 

publicado por AIMSF às 10:07
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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

 

 Fala-me de Amor

Acabei por ter
Um fraco por ti
Que foi? como veio?
Eu não percebi

Pergunto como está
A velha certeza
Será que tu sabes
O que correu mal

É que hoje eu já sabia dizer

Ama-me, leva-me p'ra lá do meu horizonte
Fala-me de amor
Fala-me de amor

Segue-me, prende-me p'ra lá do meu horizonte
Fala-me de amor
Fala-me de amor

Quero-te dizer
Que ainda estou aqui
Todo o tempo à espera
De ti

Quero-te alcançar
E estou a pedir
Para ser como era
Quando te conheci

É que hoje eu já sabia dizer

Ama-me, leva-me p'ra lá do meu horizonte
Fala-me de amor
Fala-me de amor
Fala-me de amor
 

Santos e Pecadores
publicado por AIMSF às 14:26
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