Um olhar interior...

Terça-feira, 6 de Outubro de 2009

 

 "Desde que existe a morte, imediatamente a vida é absurda. Sempre pensei assim." 

                                                                                                                                           Amália

 

23 de Julho de 1920

6 de Outubro de 1999

 

 

Saudades de Amália

 

 

 

 

 

Gosto de te Ver Assim

Gosto de te ver assim
Gosto de ti ao meu lado
Mas tu não gostas de mim
E andas muito afastado

Gosto de te ver assim
Com qualquer coisa no rosto
A dizer-me que é por mim
Que andas assim bem disposto

Gosto de ter ver assim
A fingir não entender
O sofrimento ruim
Da doença de te querer

Gosto de te ver assim
Mas gostava ainda mais
Que esse assim fosse por mim
Ai Amália, aonde vais...

Amália Rodrigues

publicado por AIMSF às 10:17
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Sábado, 26 de Setembro de 2009

 

Não rias de meus poemas

Não rias de meus poemas,
nem te desfaças de meus versos...
Deles tu és o tema,
neles mantenho expressos
os mais nobres sentimentos,
os mais exauridos lamentos,
em cada linha, anexos,
em cada rima, impressos.

 

Não rias de meus poemas
que tua imagem desenham,
que ao te verem partir, emudeceram
e com teu abandono,
não querem mais fluir...

 

Não rias de meus poemas...
Tem pena...Sofrem por ti!
Tentam somente sobreviver,
pois o amor que os mantinha
acabou de morrer.

 

Carmen Lúcia

publicado por AIMSF às 16:19
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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

A Casada Infiel

 

Levei-a comigo ao rio,
pensando que era donzela,
porém já tinha marido.
Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Os lampiões se apagaram
e acenderam-se os grilos.
Nas derradeiras esquinas
toquei seus peitos dormidos
e pra mim logo se abriram
como ramos de jacintos.
A goma de sua anágua
soava no meu ouvido,
como uma peça de seda
lacerada por dez facas.
Sem luz de prata nas copas
as árvores têm crescido,
e um horizonte de cães
ladra mui longe do rio.

*

Passadas as sarçamoras
os juncos e os espinheiros,
por debaixo da folhagem
fiz um fojo sobre o limo.
Minha gravata tirei.
Tirou ela seu vestido.
Eu, o cinto com revólver.
Ela, seus quatro corpetes.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais ao luar
resplandecem com tal brilho.
Suas coxas me fugiam
como peixes surpreendidos,
metade cheia de lume,
metade cheia de frio.
Percorri naquela noite
o mais belo dos caminhos,
montado em potra de nácar
sem bridas e sem estribos.
Dizer não quero, homem sendo,
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
me faz ser mui comedido.
Suja de beijos e areia,
trouxe-a comigo do rio.
A aragem travava luta
com as espadas dos lírios.
Portei-me como quem sou.
Como um gitano legítimo.
Uma cesta de costura
dei-lhe de raso palhiço
e não quis enamorar-me
porque tendo ela marido
me disse que era donzela
quando a levava eu ao rio.

Federico García Lorca, in 'Romanceiro Gitano'

publicado por AIMSF às 13:39
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Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

 

Não queria que fosse assim...

 

Não queria...
sofrer duras consequências,
atar-me de abstinências,
ter que roer os ossos,
captar dores e lamentos
meus, teus, nossos...

 

Não queria ...
ser tão incontingente,
rebelar-me com os problemas de toda gente,
ser um pouco mais complacente;
bradar alto o que sinto, o que sentes...

 

Não queria...
Ter esse sangue quente
que corre nas veias, borbulha inerente,
tropeça, recomeça
e segue sempre em frente.

 

Não queria...
Ser apenas uma voz ou porta-voz,
mas o coral de uma orquestra sinfônica
e em volume máximo deixar as pessoas atônitas.

 

Não queria que fosse assim...
Gentes se afastando,
amores se desgastando,
flores se fechando,
continentes se desagregando,
oceanos se revoltando,
planeta pedindo fim.

 

Não queria que fosse,
mas está sendo assim...
Aos poucos vão tragando
a vida que há em nós, em ti, em mim,
e toda a inconsciência se revela
nessa inconsequência que impera.

 

Carmen Lúcia

publicado por AIMSF às 14:40
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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

 

Ai de quem ama

Quanta tristeza
Há nesta vida
Só incerteza
Só despedida

Amar é triste
O que é que existe?
O amor

Ama, canta
Sofre tanta
Tanta saudade
Do seu carinho
Quanta saudade

Amar sozinho
Ai de quem ama
Vive dizendo
Adeus, adeus

 

 

Vinícius de Moraes

publicado por AIMSF às 14:33
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Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

Amemos!

POR QUE TARDAS, meu anjo! oh! vem comigo.
Serei teu, serás minha... É um doce abrigo
A tenda dos amores!
Longe a tormenta agita as penedias...
Aqui, ao som de errantes harmonias,
Se adormece entre flores.

 

Quando a chuva atravessa o peregrino,
Quando a rajada a galopar sem tino
Açoita-lhe na face,
E em meio à noite, em cima dos rochedos,
Rasga-se o coração, ferem-se os dedos,
E a dor cresce e renasce...

 

A porta dos amores entreaberta
É a cabana erguida em plaga incerta,
Que ampara do tufão...
O lábio apaixonado é um lar em chamas
E os cabelos, rolando em espadanas,
São mantos de paixão. 

 

Oh! amar é viver... Deste amor santo
— Taça de risos, beijos e de prantos
Longos sorvos beber...
No mesmo leito adormecer cantando...
Num longo beijo despertar sonhando...
Num abraço morrer.

 

Oh! amar é ser Deus!... Olhar ufano
O céu azul, os astros, o oceano
E dizer-lhes: "Sois meus!"
Fazer que o mundo se transforme em lira,
Dizer ao tempo: "Não... Tu és mentira,
Espera que eu sou Deus!"

 

Amemos! pois. Se sofres terei prantos,
Que hão de rolar por terra tantos, tantos,
Como chora um irmão.
Hei de enxugar teus olhos com meus beijos,
Escutarás os doces rumorejes
D'ave do coração.

 

Depois... hei de encostar-te no meu peito,
Velar por ti — dormida sobre o leito —
Bem como a luz no altar.

 

Te embalarei com uma canção sentida,
Que minha mãe cantava enternecida
Quando ia me embalar.

 

Amemos, pois! P'ra ti eu tenho nalma
Beijos, prantos, sorrisos, cantos, palmas...
Um abismo de amor...
Sorriso de uma irmã, prantos maternos,
Beijos de amante, cânticos eternos,
E as palmas do cantor!

 

Ah! fora belo unidos em segredo,
Juntos, bem juntos... trêmulos de medo,
De quem entra no céu,
Desmanchar teus cabelos delirante,
Beijar teu colo!... Oh! vamos minha amante,
Abre-me o seio teu.

 

Eu quero teu olhar de áureos fulgores,
Ver desmaiar na febre dos amores,
Fitos fitos... em mim.
Eu quero ver teu peito intumescido,
Ao sopro da volúpia arfar erguido
O oceano de cetim

 

Não tardes tanto assim... Esquece tudo...
Amemos, porque amar é um santo escudo,
Amar é não sofrer.
Eu não posso ser de outra... Tu és minha,
Almas que Deus uniu na balça edênea
Hão de unidas viver.

 

Meu Deus!... Só eu compreendo as harmonias,
De tua alma sublime as melodias
Que tens no coração.
Vem! Serei teu poeta, teu amante...
Vamos sonhar no leito delirante
No templo da paixão.

Castro Alves

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Terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Ausência

 

 

Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
 

Vinicius de Moraes

 

 

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Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

 

Estranha Sensação

 

Que amor é esse, que nos torna enlouquente
Sem medo do amor, sem medo da gente
com toques perfeitos, e os beijos mais ardentes
Uma paixão avassaladora, um amor envolvente

O que é isso que nos protege,
É amor ou questão de pele?
Porque nossos peitos desatinam a bater
Por um sentimento que nem se pode ver

Porque esses arrepios, esses momentos perfeitos?
esses desejos infinitos, que não cabem mais no peito
como a gente pode viver assim?
dependente de outros.

A resposta ainda a procuro
Enquanto isso, viveremos
A mais estranha, e melhor sensação que se pode sentir.

 

Autor desconhecido

publicado por AIMSF às 15:06
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Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nossos lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

Pablo Neruda

publicado por AIMSF às 15:23
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2009


 

Vá!

Procure de uma vez o seu destino,

Acabe de uma vez com o desatino,

Acabe de uma vez com meu tormento

Liberta-me de tanto sofrimento,

Liberta-me de uma vez desta ilusão...

 

Vá!

E deixe-me no abandono da saudade,

Vejamos de uma vez a realidade,

Que se tornou a nossa união...

 

Vá!

Prometo-lhe não vou seguir teus passos,

Nem vou lhe implorar um último abraço,

Vou recolher-me no descanso da solidão...

 

Vá!

Mas vá com a certeza de não ter arrependimento,

Procure não lembrar-me com lamentos,

Procure não pensar em ter perdão.

 

 

Gutemberg Landi

 

publicado por AIMSF às 15:11
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